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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Para duas atrizes - Quem topa?

Cena da novela "A Vida da Gente" de Lícia Manzo, originalmente protagonizada por Fernanda Vasconcelos e Marjorie Estiano. 


ANA – A gente pode conversar? (tempo)

MANU – Obrigada pelo convite, mas... Na verdade eu já tinha falado pra Júlia que eu não vou poder ir por que...
ANA – Justamente, Manuela. Por quê?
MANU – Porque eu tenho trabalho nesse dia.
ANA – Domingo? No final da tarde?
MANU – Ana, por favor...
ANA – Por favor, digo eu Manuela... Meses já se passaram e nada justifica que você continue desse jeito.
MANU – Tá, pra você... Pra você talvez...  Agora não cabe a você julgar o que eu sinto.
ANA – Eu não to julgando nada... Ao contrário, é você que tá me julgando. Aliás, você tá me condenando por conta de um erro que eu cometi...
MANU – Um erro que destruiu muita coisa, Ana. A minha confiança, por exemplo.
ANA – Desculpa, mas isso ninguém consegue destruir. A não ser que você queira. Se coloca no meu lugar...
MANU – É impossível. Porque eu já disse e repito que no seu lugar, eu jamais teria feito uma coisa dessas.
ANA – Caramba, Manuela! Você fala de um jeito que parece que eu matei. Parece...
MANU – Mas você matou! Você matou a nossa amizade. Você matou a minha confiança, você matou o amor que eu sentia e pior ainda: pra nada! Por mero capricho!
ANA – Como assim capricho? Do que você tá falando? Capricho?
MANU – Eu to falando de você ter destruído a minha relação com o Rodrigo pra nada! Porque nem coragem de bancar essa decisão, você teve! Quando eu decidi ficar com o Rodrigo lá atrás, Ana, todo mundo dizia que seu coma não tinha mais volta. Mas ainda assim foi difícil bancar a decisão de me casar com ele e eu banquei! Você sabe por quê? Porque eu sou adulta! Porque eu não daria um passo de uma decisão desse tamanho envolvendo a Júlia, pra depois amarelar e voltar atrás...
ANA – Eu não amarelei coisa nenhuma!
MANU – Eu banquei porque eu amava o Rodrigo com todo meu coração, era de um jeito que você não faz ideia, de um jeito que você não vai entender nunca, porque você não sabe o que é isso, Ana! Amor! Você usa as pessoas, Ana...  Você é o centro do Universo. E até a atenção exagerada que a mamãe sempre te deu a vida inteira e que você dizia detestar; hoje eu me pergunto se ela não te cabia muito bem, já que pelo visto...
ANA – Eu não vou levar em consideração o que você tá falando, Manuela...  Você tá magoada e...
MANU – Magoada? Magoada é pouco, eu to destruída há meses, tentando refazer a minha vida e por essa razão você não tem o direito de se fazer de vítima e vir até aqui, falando que o fato de eu ter me afastado de você é uma injustiça!
ANA (sincera e desarmada) – Desculpa... O que é que eu posso fazer pra você me perdoar?
MANU – Se afastar de mim, Ana! Me deixar em paz! Isso você pode fazer! E começa também a tomar cuidado com as outras pessoas, com o que elas sentem, porque pelo visto...
ANA – Pelo visto o que?
MANU – Pelo visto você continua fazendo a mesma coisa... Só que a vítima dessa vez é o Lúcio.
ANA – Que história é essa, Manu, de vítima? Tudo tem limite, viu Manuela? Eu não vou admitir que você fale da minha relação com o Lúcio...
MANU – Da sua o quê? Da sua relação? Relação? Relação implica em duas partes. Uma percebendo a outra, uma cedendo em nome da outra. Você não tem e nunca vai ter relação com ninguém... Sedução é uma coisa, e nisso eu admito... Nisso eu concordo que você é muito boa. Tem flerte, encantamento... Namoro... Agora, o seu repertório para por aí. E sabe por quê? Porque pra ter uma relação é preciso existir respeito mútuo. E você não respeita... Ninguém... Nem nada...  A não ser sua própria vontade.
(silêncio)
ANA – Se o tom da conversa é esse... Desculpa, mas eu vou embora...
MANU (irônica) – Isso...  Muito bom, vai embora. Vai embora...  Nem uma conversa difícil você é capaz de bancar. É isso mesmo que você faz... Vai embora, foge, dá as costas, vai embora e deixa que os outros depois arrumem o caos que você deixou...
ANA – Escuta aqui! Quem você pensa que é pra subir aí nesse seu pedestal e vir me falar de coragem? Quando na verdade...
MANU – Na verdade o quê? Do que você tá falando?
ANA – Da sua covardia... Do seu golpe baixo, de ter deixado a minha filha no momento que ela mais precisava de você!
MANU – Eu fui embora porque eu precisava. Porque eu não tinha condições naquele momento.
ANA – Ai, não tinha condições? Coitadinha, né? Não tinha condições de agir feito a adulta que você diz que é pra ajudar a própria filha?
MANU – Eu não deixei a Júlia sozinha, ela também é sua filha!
ANA – Claro! Agora que te interessa eu também sou a mãe dela!
MANU – Olha aqui, é melhor a gente encerrar essa conversa.
ANA – Melhor pra quem?! Pra você? Porque é muito fácil você apontar o dedo na minha cara como se você fosse íntegra! Como se você fosse certa!
MANU – Ah, me desculpa Ana, mas perto de você...
ANA – Perto de mim, o quê? Você, Manuela, você é o centro do universo. Você deu as costas pra minha filha no momento que ela mais precisou de você! Você deixou ela se desestabilizar, você deixou ela sofrer, me rejeitar... Porque assim... Assim você se afirmava a mãe verdadeira né? A mãe perfeita... E ainda de quebra, destruiu qualquer possibilidade de entendimento entre mim e o Rodrigo. Você me acusa de ter amarelado, de ter voltado na minha decisão, mas fique sabendo que eu não fiquei com ele por sua causa, porque você minou essa relação quando se recusou a fazer uma ponte entre mim e a Júlia! Sabe por quê? Pra se vingar... Se vingar do fato do Rodrigo ainda me amar.
MANU – CALA A BOCA, ANA! CALA A BOCA! Eu não sou obrigada a ficar ouvindo isso na minha casa!
ANA – É obrigada sim porque essa casa aqui deveria ser minha! Essa vida deveria ser minha e a Júlia É MINHA FILHA! Não é sua filha! Você ouviu bem? E a minha história com o Rodrigo, ela foi abortada duas vezes. A primeira pela minha mãe e a segunda por você... Que impediu que a gente tentasse... Quer saber? Não adianta Manuela... Não adianta... Mesmo que a gente não fique junto, mesmo que o mundo inteiro impeça, o amor que a gente sente um pelo outro vai continuar existindo... (Ana desmonta e chora.).
Silêncio.
MANU- Para... E ouve... Ouve o que você acabou de dizer... Você acabou de dizer que o seu amor pelo Rodrigo continua existindo ao mesmo tempo em que você vem aqui com esse convite de casamento idiota na mão.
ANA – Eu não quis dizer isso em relação ao Rodrigo...
MANU – Você nunca quer dizer nada, não é? Você é sempre bem-intencionada. Mas deixa eu te falar uma coisa, Ana...  De boas intenções o inferno tá cheio...  E sendo assim... Libera o Lúcio, vai... Ele é um cara bacana, ele não merece ser usado por alguém como você...

 (Ana está aos prantos e encara a irmã. Atônita, sai de cena.Agora Manuela também chora).

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Aproximamos as personagens de algo mais real", diz Lícia Manzo sobre o final de "A Vida da Gente"


Na reta final de “A Vida da Gente”, a autora Lícia Manzo conta em entrevista ao site oficial da novela que mudou o destino de alguns personagens  e que construiu a história deles baseadas no cotidiano, nas mudanças rotineiras, nos acertos e erros da vida.
“Várias histórias vão se tecendo à medida em que a novela se desenha. Nesse sentido, é um pouco como a vida, que vai se desdobrando ao longo do tempo, sem que saibamos previamente todas as respostas. Com relação ao impacto ou repercussão inesperada de algum núcleo ou personagem, diria que a divisão apaixonada do público entre Ana (Fernanda Vasconcellos) e Manu (Marjorie Estiano) foi de fato surpreendente para mim. E também muito inspirador, porque deflagrava a complexidade da questão, e evidenciava que na vida nem sempre uma pessoa está 100% certa, e outra 100 % errada. Todo mundo erra e acerta, todo mundo alterna força e coragem, generosidade, egoísmo, grandeza, mesquinhez, decisões mais ou menos sábias, enfim, tudo faz parte de todos nós. E, ao exibir os erros de ambas, sem caracterizar uma ou outra como 'má' ou 'errada', penso que humanizamos as personagens, e as aproximamos de algo mais real ou reconhecível”, declarou a Lícia, sobre sua primeira novela.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Vida da Gente - Crítica



Bom não é esse o propósito do blog, mas como ator, diretor e alguém que tem paixão pelas letras, não posso me furtar a falar sobre o curioso caso da novela das seis "A Vida da Gente".

A Globo estava com um pepino no horário há alguns anos. O último grande sucesso (ainda assim de qualidade dramatúrgica duvidosa) foi "Alma Gêmea", em 2005. De lá pra cá o que se viu foi uma repetição de clichês e nada de novo. "Sinhá Moça" tinha um bela fotografia e bom elenco, mas era mais do mesmo. Elizabeth Jhin tentou algo diferente em "Eterna Magia" mas foi prontamente orientada a transforma sua trama de Bruxas e Magos em mais um folhetim água com açúcar. E o que se viu a seguir foi uma sucessão morna de histórias que soavam remakes de si mesmas.

A história começou a mudar em abril de 2011 com "Cordel Encantado". Um risco que a emissora decidiu correr: Uma trama de reis e rainhas misturada com o sertão brasileiro. Elenco, figurino, cenário, direção e história afinados renderam uma das melhores produções do horário. Então veio o desafio de se manter o padrão da qualidade alcançada pela trama de Telma Guedes e Duca Rachid.

Lícia Manzo veio com sua primeira novela solo. Anteriormente, escreveu o seriado de única temporada "Tudo Novo de Novo", estrelado por Júlia Lemmertz e Marco Ricca. Agora tinha a responsabilidade de manter a audiência conquistada pela bem-sucedida "Cordel Encantado".

Lícia optou por um trama com poucos personagens, o que permite tramas mais densas e profundas e parece que é exatamente essa a proposta de "A Vida da Gente". Não há clichês. Não há previsibilidade. Não há vilões. O ser humano é apresentado na sua complexidade e na suas multifacetas. Não se pode dizer que Eva ou Vitória sejam vilãs. Apesar do comportamento obcecado das duas, elas são completamente críveis e não são más no sentido maniqueísta da palavra. A primeira tem adoração pela filha, e não comete atrocidades e assassinatos como a Tereza Cristina de "Fina Estampa". A segunda é uma treinadora mão-de-ferro, amarga, dura, mas que ao mesmo tempo condenou veementemente a atitude da atleta que tomou estimulantes antes de entrar em quadra. Não são conceitos morais que faltam às duas. São emocionais.

A trama central fala de amor, claro. Mas foge do lugar-comum ao ir além do quem-fica-com-quem. Manu, Ana e Rodrigo são personagens que têm profundidade e a autora usa de outros personagens para devassar a intimidade desse triângulo. O público sente-se como amigo e confidente dos personagens. A autora traz no texto, reflexões e pensamentos que levam o público a se identificar e compreender o que se passa com cada personagem. A autora ainda usa do cotidiano, das cenas mais comuns do dia a dia como pano de fundo nas suas cenas, o que faz lembrar os bons tempos de Manoel Carlos. Tudo com muita beleza e delicadeza. A direção de arte é outro show a parte. Figurinos, cenários, o filtro usado na câmera. Até a acertada escolha em fugir do eixo Rio-São Paulo e ambientar a novela em Porto Alegre e Gramado, duas cidades belíssimas e com paisagens que combinam perfeitamente com a certa dose de melancolia que a trama traz.

A novela traz Fernanda Vasconcelos em seu melhor momento na TV. Marjorie Estiano confirma o que se percebe dela desde muito tempo: É uma atriz pronta. O mesmo não se pode dizer de Rafael Cardoso, que ainda precisa de muito feijão-com-arroz. No mais o elenco é homogêneo. Gisele Fróes, Ana Beatriz Nogueira, Thiago Lacerda, Ângelo Antônio, Regiane Alves, Paulo Betti, Malu Gali estão seguros e dando show em cena. Gratificante é ver o trabalho de Nicette Bruno e Stênio Garcia sendo valorizado numa trama tão bonita.

A novela trouxe a grata surpresa que atende pelo nome de Maria Eduarda, atriz excelente que vem arrebentando num papel extremamente difícil. E ainda a pequena Jesuela Moro que foge do tatibitate comum às crianças da sua idade em novelas. Quem surpreendeu também positivamente foram Sthefany Brito, Daniela Escobar, Leona Cavalli e Júlia Almeida. Atrizes que sempre foram fraquinhas, mas conseguiram um resultado satisfatório na novela. Claro que nem tudo são flores. Rafael Almeida, Eriberto Leão e Francisco Cuoco continuam interpretando a si mesmos. E a novela sofre agora mais uma baixa com a entrada do infame Klebber Toledo. Mas, o que há de se fazer né?

A novela entra em sua reta final e já deixa saudade com uma das melhores produções da Globo nos últimos dez anos. Aliás, louvável essa postura da emissora em investir no horário das seis. Que assim seja com "Amor, eterno Amor" de Elizabeth Jhin que vem por aí.