terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sfogarsi*

E esse medo que domina todo o meu corpo me faz ficar aqui, parado, em inércia. Vendo meus sonhos e expectativas ruírem em nome de algo que eu nem sei se é meu. O pânico que congela. Que me impede de avançar e correr.
De tudo que me assombra, essa solidão é o que mais causa horror, o que me tira a sanidade vez por outra. Acordar e dormir sem ter um ouvido pra esse grito preso. Eu só queria que alguém jogasse na minha cara que é tudo bobagem, que nada disso, nenhuma parte desse sofrimento todo é útil ou verdadeiro.
Então eu sigo cada vez mais cético no ser humano, nas pessoas em redor, pois quem diz que é diferente, é porque na verdade é pior do que todo mundo e tem medo disso. Eu na verdade devo ser diferente de todo mundo mesmo, mas pra pior. Eu misteriosamente descobri uma fórmula de invisibilidade que me faz passar incólume por todos os lugares por onde ando. Ninguém me nota. E quando nota fica indiferente. Eu só queria saber como conseguir um pouquinho de cor. Um pouco de vida. Um pouco de graça. Ser mais que um mero objeto na sala de espera.
Eu queria tanto voltar a acreditar, voltar a imaginar que depois desse terreno pedregoso vai vir uma estrada bonita com gerânios e girassóis. Mas o caminho a minha frente soa cada vez mais nebuloso e cinza. Sombrio.
Vou levando os dias porque não me resta alternativa.
Caminho todas as noites pra que meu corpo chegue à exaustão e não me deixe pensar quando deito. Porque nada do que eu penso é bonito. Nada mais que eu sinto tem cheiro agradável. Ficou só o odor putrefato de coisas mortas.
Foi outro aborto.


*Em italiano: aliviar ou dar vazão aos seus sentimentos; abrir o coração; desafogar-se; desabafar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Salve Jorge - Primeiro Capítulo

Ontem estreou a nova novela das 21h, Salve Jorge, de Glória Perez. Eu sempre tenho o pé atrás com essa autora. De um modo geral, Glória sabe falar com o povão, costuma amarrar bem suas tramas, mas acho que peca pelo exagero, pela falta de verossimilhança e pela repetição de situações. Mas fui assistir com boa vontade, pela estreia de Nanda Costa como protagonista e também por outros bons nomes do elenco, como Alexandre Nero, Domingos Montagner, Totia Meireles, entre outros. Mas Mariana Rios, Giovana Antonelli, Flávia Alessandra, Fernanda Paes Leme e Rodrigo Lombardi se repetem nos mesmos tipos de sempre.

A ideia de usar a ocupação do Morro do Alemão como plano de fundo para o início da história foi muito feliz. Foi um momento importante da cidade do Rio de Janeiro. Usar as imagens reais da época também foi uma ideia ótima, mas de execução infeliz. A edição ficou meio tosca. Deu um ar de novela da Record logo de cara. Aos poucos essa imagem foi sendo perdida, ainda bem.

Achei os diálogos meio bobos, forçados. Tentando deixar tudo muito claro, muito mastigado para o telespectador. É sempre bom lembrar: O público de hoje mudou, está mais exigente. E teve ainda o problema da repetição. A Neusa Borges tava lá fazendo o mesmo tipo histérica de sempre. O "Seu Gomes", o "Farinha", o Antônio Calloni casado com uma mulher que lançará os bordões estrangeiros da novela, o núcleo pobre irreverente... Tudo como dantes na terra de Abrantes. É uma das coisas que me incomoda nesses autores veteranos das 21h: Insistem em fazer novela como há dez, vinte anos atrás.

A abertura ficou muito bonita e casou perfeitamente com a voz de Seu Jorge. Aliás o trabalho técnico e de produção está de parabéns, como é de se esperar das produções da Globo. Não dá pra se analisar uma obra só pelo primeiro capítulo, é preciso aguardar e ver o que Salve Jorge ainda tem pra contar para o espectador.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Requiem

Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assenta e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos… Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. Mas se você tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. … E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Meu corpo

Fui magro até a adolescência, talvez até os 17 anos. A chegada na vida adulta só aumentou a minha ansiedade natural e de certa forma fui transferindo isso pra alimentação. Com o passar dos anos isso foi agravado pela diminuição de atividade física, resultando nessa massa enorme que eu sou hoje.

Sim, eu sei o quanto eu estou gordo. Não preciso que ninguém me diga isso ou faça piadas com o fato. Acreditem, nada disso ajuda. É um desconforto que só está aumentando e eu sei que preciso tomar uma decisão. Mudar de postura.

A ansiedade eu estou tentando controlar com reiki. Mas num dia a dia tão corrido, com dois empregos, pouco tempo sobra pra atividade física. Aliás, tempo nenhum. E com esse rotina pesada, fica difícil se alimentar como deveria.

Hoje acordei me sentindo péssimo com relação a isso. Me sentir mal não vai mudar muito as coisas, eu sei. O que eu tenho que tentar é achar um equilíbrio pra não começar a ter pavor de comida. Na verdade eu já estou bem próximo disso.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cheias de Charme - Balanço final.

A coisa de cinco anos atrás, a Globo percebeu que tinha algo errado em sua faixa de novelas. O horário das seis vivia de remakes. E o horário das sete patinava na audiência, tanto que Walcyr Carrasco nesse período quase que emendou um trabalho com o outro, pois suas tramas eram as únicas que conseguiam um resultado próximo do satisfatório. E às 21hs não se via muita perspectiva de mudança a curto prazo. Tirando as novelas de Glória Perez, nada parecia fisgar muito o telespectador, até a chegada de João Emanuel Carneiro  no horário com "A Favorita".

De lá pra cá, a emissora entendeu que era hora de se renovar, dando oportunidade a novos autores mostrarem o que têm pra dizer. Começou com a falecida Andrea Maltarolli, Elizabeth Jhin, Thelma Guedes e Duca Rachid e foi se estendendo a Lícia Manzo, Bosco Brasil, Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. A bola da vez agora está com João Ximenes Braga e Cláudia Lage em "Lado a Lado", ás 18hs. No geral as experiências foram positivas, com exceção de "Tempos Modernos" do Bosco Brasil.

Mas dos três horários mencionados, a maior incógnita sempre foi o horário do meio. Ninguém sabia precisar com certeza o que o novo telespectador das 19h30 queria assistir. Novo sim, pois os costumes mudaram, leva-se mais tempo pra se chegar em casa nos grandes centro, é cada vez maior o número de pessoas fazendo faculdade a noite, etc. Então afinal de contas, o que uma novela das 19h teria que ter pra fisgar o espectador?

Cheias de Charme não reinventou a pólvora, mas mostrou caminhos possíveis. Primeiro, os autores são dois craques, veteranos em colaboração em outras obras. Filipe ainda escreveu peças para a Cia dos Atores. Criaram tipo inesquecíveis, marcantes, e isso é um ponto. Quem vai se esquecer que um dia houve uma vilã como Chayene? Um canastrão chamado Fabian? Um grupo chamado Empreguetes? Toda a estruturação da trama foi muito bem amarrada e fez com que o espectador pudesse acompanhar passo a passo, sem saltos ou furos de roteiro, a ascensão das três Marias para o estrelato. A novela trouxe humor e emoção na medida certa, tudo com um tom farsesco e debochado que remete às antigas novelas das sete, como Bebê a Bordo, Guerra dos Sexos, Quatro por Quatro, Que Rei sou Eu, etc. Toda a estética de conto de fadas, história em quadrinhos chamou a atenção de um público que a Globo decidiu abandonar pelas manhãs: o infantil. E ta aí Carrossel pra não deixar mentir: Tem criança em casa a noite sim, e elas estão doidinhas pra fugir da mesmice da TV a cabo.

Música e internet. A conexão da teledramaturgia com essas duas outras linguagens, também foi responsável pelo sucesso da trama. Foi um risco. E no final deu tudo mais do que certo. 

O elenco foi outra escolha acertadíssima. Ou alguém consegue imaginar outra atriz vivendo Chayene? Cláudia Abreu esteve estupenda durante toda a novela, inclusive na reta final, quando a trama mostrou sinal de desgaste, Cacau segurou boa parte da trama nas costas, com a boa surpresa Titina Medeiros e Luiz Henrique Nogueira. As três Marias, protagonistas vividas por Leandra Leal, Isabelle Drummond e Taís Araújo também estiveram seguras nos seus papéis, com destaque pra Taís, que soube dar a volta por cima da Helena de Viver a Vida, e fez de Maria da Penha a sua melhor atuação. Não dá pra não citar a estonteante Mallu Gali, que carregou a parte dramática da novela com brilhantismo. Outro acerto foi a família Sarmento, com excessão de Jonatas Faro e Gisele Batista, ainda fracos. Mas Alexandra Richter, Tato Gabus, Rodrigo Pandolfo, Simone Gutierrez, Dhu Moraes e Aracy Balabanian formaram o núcleo mais interessante da história.   Desde os maus-tratos a Cida até a derrocada financeira da família.

Marcos Palmeira, Humberto Carrão, Chandely Braz, Ilva Niño, Leopoldo Pacheco, Miguel Roncato, Tainá Muller, Marília Martins e Daniel Dantas também tiveram seus momentos de brilhar. Aliás foi outra característica da novela: Todos tiveram seu momento. Talvez tenha sido uma das boas lições que Izabel tenha aprendido nos seus anos de colaboradora de Manoel Carlos em suas melhores épocas: Durante a trama, dar espaço pra todos.

A novela já deixa saudade. Muito se comentou acerca de um spin-off ou uma série derivada. Bobagem. Os próprios autores não acreditam nisso. E é bom que seja assim. Que todos tenhamos ficado com esse gostinho de quero mais. Pela frente tem Guerra dos Sexos, do Silvio de Abreu e em seguida, Sangue Bom da Maria Adelaide Amaral. Dois craques. Sorte pra eles!